segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Dandy Daho

Étienne Daho acaba de lançar um CD e DVD duplo do show que fez em 3 de dezembro de 2008 na Salle Pleyel, em Paris, trabalho que certamente é uma ótima introdução ao universo deste cantor e compositor, sem dúvida um dos mais importantes da chanson française dos últimos trinta anos.

Nascido em Oran, na Argélia, em 1956, Étienne Daho iniciou sua carreira no fim dos anos 1970 e fez parte da cena rock da cidade de Rennes que naquela época trouxe aos palcos franceses muitos artistas importantes, entre os quais Elli Medeiros, Jacno e as bandas Stinky Toys e Marquis de Sade (veja a respeito deste último grupo a matéria postada neste blog:
http://metreno.blogspot.com/2009/04/play-it-again-sam-marquis-de-sade.html).

Após o primeiro disco, Mythomane (1981), produzido por Jacno, Daho logo conhece o sucesso com os discos La Notte, la notte (1984), que traz o sucesso “Week-end à Rome”, até hoje referência do estilo electro/new wave francês, Pop Satori (1986) com produção, entre outros, de William Orbit, e Pour nos vies martiennes (1988), com o qual Daho estende seu sucesso a outros países, entre os quais a Inglaterra, apresentando-se no lendário Marquee e trabalhando com diversos artistas, como Chris Isaak.

Paris ailleurs (1991) o consagra definitivamente como um dos artistas franceses de maior importância, com nada menos que 5 músicas lançadas em single, entre as quais, “Saudade” e “Comme un igloo”. Segue-se uma turnê por 14 países que fortalece o sucesso internacional do cantor.

Após Reserection (1995), EP escrito e gravado com a banda inglesa Saint Etienne e que traz o sucesso “Jungle Pulse”, Daho lança Eden (1996), que, apesar de não ter sido bem recebido por parte do público, sem dúvida é um dos seus trabalhos mais ambiciosos e pessoais, notadamente com a participação de Astrud Gilberto na faixa “Les bords de Seine” e dos Swingle Singers.

A partir daí, Daho vai desenvolver uma parceria muito bem-sucedida com a dupla Les Valentins, com a qual lança três ótimos discos, Corps et armes (2000), Réévolution (2003), que conta com a participação de Charlotte Gainsbourg e Marianne Faithfull, e L’invitation (2006), este último acompanhado do EP Be My Guest Tonight, de 5 faixas, entre as quais uma ótima regravação de “Cirrus Minor”, do Pink Floyd.

Considerado um ícone da cena pop francesa, Daho tem um universo musical de várias facetas, desde o Velvet Underground até Serge Gainsbourg, ou ainda os Beach Boys ou David Bowie. Ele costuma também desenvolver parcerias, tendo assim trabalhado com Françoise Hardy, Jane Birkin, Vanessa Paradis, Sylvie Vartan, Coralie Clément, Alain Bashung ou a banda Air.

Em 2008 é lançado o songbook Tombés pour Daho, em que vários artistas interpretam suas canções, entre os quais Benjamin Biolay, Sébastien Tellier, a dupla Ginger Ale e Sébastien Schuller.

É possível encontrar no Brasil, importados, alguns dos CDs de Daho, e vale lembrar que sua gravação da música de Edith Piaf “Mon manège à moi” acabou sendo sucesso aqui como parte da trilha sonora da telenovela Paraíso t
ropical (2007), em que era o tema de Bebel (Camila Pitanga) e Olavo (Wagner Moura).

Daho Pleyel Paris (2009) traz o DVD e CD do show, com participação de Marianne Faithfull, Jane Birkin, Charlotte Gainsbourg, Camille e Katerine, além de um DVD repleto de extras sobre a carreira do artista e a ultima turnê.

Concomitantemente, a Fnac da França deu carta branca ao cantor, que, por meio de uma coletânea, apresenta artistas atuais de seu gosto, entre os quais Peter Doherty e as bandas Au Revoir Simone, The Last Shadows Puppets e Phoenix, provando assim que Daho continua antenado na cena rock e pop internacional, principalmente inglesa.

Maiores informações estão disponíveis no site
www.etiennedaho.com e na página http://www.myspace.com/etiennedaho.

Os “facebookers” podem acessar e se cadastrar no http://www.facebook.com/EtienneDaho

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A volta das cocotes


As cocotes estão de volta. Não as mulheres mundanas da passagem entre os séculos 19 e 20, que inspiraram tantos autores, como Émile Zola e Marcel Proust, mas as cocottes, que em francês são “panelas de barro” ou “de ferro fundido” em que se preparam pratos tradicionais, geralmente refogados com amor e paciência.

E as cocottes se modernizaram tornando-se mignonnes, ou seja, de tamanho individual para que cada um possa saborear uma comida caseira, refogada, quentinha dentro de uma panelinha com tampa. Depois da moda das verrines (pequenos copos individuais para servir caldos e entradas frias ou quentes), e as "colheres para degustação", as cocottes são a nova tendência de uma culinária francesa que quer resgatar gostos tradicionais e adaptá-los à modernidade.

Nada mais chique e ao mesmo tempo aconchegante que usar essas panelinhas individuais para apresentar os mais tradicionais refogados. Porque a comida refogada é a base da culinária de muitos países, e sempre remete a lembranças da infância, da comida maternal, da tradição. Ou seja, de repente essas cocottes têm certo efeito terapêutico, como um certo gosto de revivescência na nossa época, em que tudo tem de ser trend, brand, espumoso e diferente. Em que nosso olfato e paladar, antes de tudo, têm de entender o que é hype e digerir sem arrotos qualquer nova tendência.

Nessas horas, a cocotte é absolutamente freudiana, emocionalmente apaziguadora e muito bonita. Porque essa mundana se tornou fashion, adotando novas linhas e cores, mas com respeito às regras básicas do bem-estar, formas redondas, alças para agarrar e tampa para manter tudo quente. Toque sensual, quase sexy, melhor ainda que um programa da Nigela Lawson.


E ao falar nas cocottes, não posso omitir o restaurante do mesmo nome de Christian Constant, situado no 133 rue Saint Dominique, em Paris, e em que todos os pratos são servidos nessas panelinhas ou em verrines. Christian Constant foi chef do restaurante Les Ambassadeurs do hotel Crillon, em Paris, antes de abrir seu próprio negócio. Hoje, Christian Constant tem três endereços: Les Cocottes, Le Violon d'Ingres e o Café Constant, todos situados na rue Saint Dominique.

Tive a oportunidade de almoçar no Violon d'Ingres, em que não experimentei as famosas cocottes, mas pratos bem interessantes, embora eu tenha ficado um pouco decepcionado com o ambiente um tanto frio e o ris de veau que achei um pouco convencional e malpassado demais para o meu gosto. Mas, pelo menos, tive o prazer de dividir o espaço com ninguém menos que Charles Aznavour...

Pois é, parece até comentário de cocote... Para mostrar o quanto voltaram à moda!

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Linda flor de Cabo Verde


A cantora Mayra Andrade acaba de lançar seu segundo CD, intitulado Stória, stória…, gravado em Paris, Havana e Rio de Janeiro, produzido por Alê Siqueira, em que retoma com muito êxito o coquetel de ritmos típicos de Cabo Verde, com influências da musica africana, brasileira, cubana e do jazz.

Nascida em Cuba, Mayra passou sua infância em São Tiago, no arquipélago de Cabo Verde, mas também em Angola, no Senegal e na Alemanha. Hoje é radicada em Paris e conhece um sucesso cada vez maior junto ao publico francês, que a descobriu graças ao primeiro CD, Navega (2006), e ao sucesso "Comme s'il en pleuvait". Ela também está obtendo grande sucesso em Portugal, onde se apresenta com muita frequência.

Para o novo trabalho, Mayra compôs três canções e chamou alguns dos melhores compositores de Cabo Verde para criar um excelente repertório, em que se encontram os ritmos tão marcantes daquele país (morna, coladeira, bandeira). De novo, o disco oferece uma série de musicas marcantes, ao mesmo tempo ritmadas e melancólicas, sorridentes e emocionantes, entre as quais se destacam as lindas "Tchápu na bandera", "Stória, stória…", "Mon Carrousel", com gracioso arranjo de acordeão, ou a delicada e tocante "Morena, menina linda", cuja orquestração, de Jaques Morelenbaum, é extremamente emocionante e se adéqua perfeitamente à delicadeza da letra sobre o amor. Outro destaque é a canção "Palavra", com judiciosa letra do cabo-verdiano Mário Lúcio Sousa. Além de Morelenbaum, o disco contou também com a participação do pianista cubano Roberto Fonseca e da acordeonista portuguesa Celina da Piedade.

E todo o bem que se pode pensar ao escutar os discos de Mayra Andrade acabou de se confirmar no show arrebatador que ela deu no ultimo dia 2 de outubro, em La Cigalle, Paris, em que durante 1h30 a cantora conquistou o público parisiense que veio em massa para aplaudi-la. Simpática, carismática e com ótimos músicos, entre os quais o incrível baixista camaronês Etienne Mbappé e o talentoso baterista Luiz Augusto Cavani, Mayra Andrade fez um show absolutamente perfeito, ritmado e emocionante, em que provou ser dona de uma voz ao mesmo tempo poderosa e suave. A linda participação da cantora Yael Naim foi mais uma bela surpresa nessa maravilhosa apresentação.

Mayra, que está em turnê para o lançamento do disco, já se apresentou no Brasil, no Sesc Pompeia de São Paulo, em 2007, e no Rio de Janeiro, no último mês de agosto, dentro do Festival Black2black. Resta torcer agora para que ela volte logo aos palcos brasileiros com maior divulgação.

O site muito completo da cantora, em três línguas (francês, inglês, português), permite ouvir trechos de todas as músicas do novo disco: http://www.mayra-andrade.com/

Vários vídeos estão disponíveis no YouTube, inclusive clipes e trechos do show da Cigalle, entre os quais a arrepiante interpretação de "Lua", com solo de baixo de Etienne Mbappé http://www.youtube.com/watch?v=og-4E345s6o&feature=related

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

A Star is back

É sempre bom rever amigos, principalmente aqueles que já nos trouxeram muitas emoções, nos quais pensamos com muito carinho, com ternura, mas que acabamos perdendo de vista por causa dos acontecimentos da vida, porque mudamos de rumo, ou porque eles seguiram outro caminho. Ou, simplesmente, porque não era o momento, não havia mais sintonia. Wrong people at the wrong place.

Tive isso com a Barbra Streisand, que amei quando a descobri, no começo dos anos 1980; que me impressionou quando acompanhei seu percurso artístico, ou sua volta aos palcos; com a qual me diverti com Funny Girl (1968) ou On a Clear Day You Can See Forever (Num dia claro de verão, 1970), e que me emocionou com Yentl (1983).

Acontece que nos dez últimos anos não senti a mesma sintonia. Achei os discos fracos (como Holly Ground e seu assustador dueto com Celine Dion!), e Barbra teve poucos destaques, a não ser a hilária participação no filme Meet the Fockers (Entrando numa fria maior ainda, 2004), em que fazia um ótimo par com Dustin Hoffman.

E, de repente, Barbra volta a me surpreender e me emocionar com seu novo trabalho, intitulado Love is the Answer. A proposta é tão simples que se torna inovadora. Gravar standards com Diana Krall e seu quarteto, e arranjos orquestrais de Johnny Mandel.

Parece óbvio, mas não é! Porque, ao ir procurar a nova musa do jazz americano, talvez a que hoje mais saiba unir mainstream com classe, Barbra de repente está resgatando o que perdera há algum tempo: uma suavidade sem afetação, o bom gosto que lhe é inato... Aquilo que foi a sua marca durante os anos 1960 e 1970, mas que nem sempre apareceu nos trabalhos das duas últimas décadas...

Love is the Answer é joia rara. É um disco sobre o amor e a delicadeza, com refinamento e sutileza. O quarteto de Diana Krall tece o mais perfeito leito para um finíssimo repertório, em que se encontram pérolas como "Here's to Life", "In the Wee Small Hours of the Morning", ou ainda "You Must Believe in Spring". A música brasileira está presente com a linda gravação de "Love Dance" de Ivan Lins ou com citações da Bossa Nova e Jobim, como em "Gentle Rain", que remetem ao disco Quiet Nights que Diana Krall lançou recentemente. O único deslize, a meu ver, é a descartável gravação de "Smoke Gets in your Eyes", cujo arranjo tem algo grandiloquente que destoa do resto do trabalho.

O disco foi lançado em duas edições: a "normal", com 13 faixas, e a "Deluxe", com um segundo CD que oferece nove gravações apenas com o quarteto de Diana Krall, entre as quais uma lindíssima interpretação de "Where do you Start".

Além desse lindo trabalho, Barbra Streisand decidiu se apresentar com um quarteto no mítico Village Vanguard de Nova York, em que não cantava desde 1962. O show aconteceu no último dia 26 de setembro, para um público de 100 pessoas, entre fãs sorteados por meio do site da artista e alguns VIPs, como o casal Clinton, Sarah Jessica Parker e Nicole Kidman.

Todas as informações relativas ao novo CD se encontram no site de Barbra: www.barbrastreisand.com

O mesmo site tem um link para o show do Village Vanguard, com vários vídeos:
http://www.barbrastreisand.com/us/village-vanguard-2009

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Tiffany em Paris

O Musée du Luxembourg, em Paris, recebe até 17 de janeiro de 2010 a primeira exposição monográfica de Louis Comfort Tiffany (1848-1933) na Europa.

Filho do empresário Charles Lewis Tiffany, fundador da famosa empresa Tiffany & Co., Louis Comfort Tiffany foi um artista cuja importância é cada vez mais reconhecida, justificando assim plenamente a realização dessa mostra.


A exposição aborda a carreira do artista não somente de um ponto de vista cronológico, mas também temático, com ênfase nos maravilhosos vitrais concebidos por Tiffany e o fascínio que ele tinha pela natureza, a representação de temas vegetais, animais, mas também pelo aspecto religioso. A sua inacreditável criatividade, junto a uma ousadia técnica sempre renovada, faz deste artista um dos mais importantes na virada do século 20, em movimentos artísticos como o Art Nouveau ou o Simbolismo.


Inspirando-se de início em temas orientais, Tiffany vai ao longo de sua carreira desenvolver o gosto pelo exotismo e as inovações tecnológicas. Assim, ele soube utilizar a chegada de eletricidade para criar maravilhosas luminárias inspiradas na natureza, e em que a luz se torna elemento preponderante para que cores e temas pareçam orgânicos, ou seja, vivos.

Tiffany foi um dos artistas americanos mais importantes do começo do século 20, com talento reconhecido e premiado, notadamente na Exposição Universal de 1900, em Paris, e seu legado se estende não apenas à realização de vitrais, mas também de pinturas, joias ou cerâmicas.

Tiffany também foi empresário, tendo criado desde o fim do século 19 a Stourbridge Glass Company, que empregou vários artistas responsáveis pela realização das obras concebidas por ele, e realizou muitos trabalhos de encomenda para magnatas ou estadistas.

E manteve por toda a vida estreitas relações com a Tiffany Company, da qual se tornou diretor artístico depois da morte de seu pai, em 1902.

Por fim, dedicou muito tempo e esforços à construção de sua mansão, Laurelton Hall in Oyster Bay, Long Island (NY), de mais de 240.000 m2 e 84 cômodos, que infelizmente, após ter sido doada à sua fundação para estudantes de artes, e vendida em 1949, acabou sendo destruída por um incêndio em 1957.

Por todos esses motivos, a exposição L. C. Tiffany – Couleurs et Lumière do Musée do Luxembourg é algo incontornável para quem estiver visitando a capital francesa até o próximo mês de janeiro.

Maiores informações podem ser encontradas no site http://www.museeduluxembourg.fr/

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

As filhas de Kate

A hoje sumida Kate Bush, egéria dos anos 1980, continua presente na voz de novas artistas que não escondem nos seus trabalhos o quanto a obra dessa cantora foi e permanece importante e atual.

A cantora francesa Émilie Simon acaba de lançar o CD The Big Machine, que remete diretamente ao trabalho de Kate Bush. Já no terceiro disco da carreira, Émilie Simon ficou conhecida pelo sucesso da canção "Desert", do CD de estreia, que foi remixada por vários artistas e DJs, entre os quais Thievery Corporation. Ela ficou ainda mais conhecida internacionalmente por ter composto a trilha sonora original do filme A marcha dos pinguins, grande sucesso internacional que lhe rendeu vários prêmios.

Hoje radicada em Nova York, Émilie Simon mostra com The Big Machine uma verdadeira maturidade artística. Sua voz remete imediatamente ao estilo tão peculiar de Kate Bush, assim como certa complexidade musical e um inegável senso de melodia. Contudo, a própria Émilie Simon ainda cita Laurie Anderson, outra figura marcante dos anos 1980, e a cena nova-yorkina da mesma época como fontes principais de inspiração deste novo trabalho.

Com o engenheiro de som Mark Plati (que já trabalhou com David Bowie) e a participação dos artistas Kelly Pratt (Arcade Fire) e John Natchez (Beirut), além da utilização de surpreendentes recursos como instrumentos tradicionais chineses, Émilie mostra toda a diversidade e riqueza de seu talento, fazendo com que The Big Machine seja desde já um dos discos mais marcantes deste ano.


Marina Diamandis, por sua vez, está ainda no começo de uma carreira que parece ser bem promissora. Esta cantora galesa, que assina seu trabalho sob o nome Marina and The Diamonds, acaba de lançar um EP intitulado The Crown Jewels, com três ótimos títulos, entre os quais a irresistível canção "I am not a Robot", que tem cara de hit instantâneo. De novo, a influência de Kate Bush e também de Björk são onipresentes nas composições e no canto de Marina, cujo primeiro CD deve ser lançado em breve.

O site de Émilie Simon http://www.myspace.com/emiliesimonmusic permite ouvir alguns títulos da artista, e o clipe da canção "Dreamland" no YouTube é imperdível http://www.youtube.com/watch?v=-tq1KmWW_n4&feature=fvsr

Da mesma forma, as músicas de Marina and The Diamonds podem ser descobertas no site http://www.myspace.com/marinaandthediamonds

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Giovani cantanti

Boas notícias musicais chegaram recentemente da Itália, que continua produzindo talentosos artistas, ainda pouco conhecidos aqui.

A cantora de jazz Roberta Gambarini, que infelizmente teve que cancelar sua participação no Tim Festival de 2007 por motivos de saúde, acaba de lançar um lindo trabalho intitulado So in Love, no qual ela confirma ser umas das artistas mais promissoras da nova geração.

Originária de Turim, Roberta Gambarini vem conquistando um merecido sucesso internacional desde seu CD de estreia, Easy to Love (2006), indicado ao Grammy de 2007 na categoria Melhor Album Vocal de Jazz. You Are There, de 2008, que tem notadamente a participação do pianista Hank Jones, confirmou as expectativas geradas pelo primeiro trabalho.

So in Love conta com músicos tão prestigiosos quanto James Moody, Roy Hargrove, Tamir Hendelman para servir um repertório em que Roberta Gambarini brilha ao interpretar clássicos do jazz como “Get out of Town”, “From this Moment on” ou “You Must Believe in Spring”, mas também canções dos Beatles, “Golden Slumbers” e “Here, There and Everywhere”, ou ainda o sucesso italiano “Estate”. Destacam-se a belíssima gravação de “Crazy”, sucesso na voz de Patsy Cline, e o medley da trilha do filme Cinema Paradiso.


Se Roberta Gambarini ainda não teve a oportunidade de tecer laços musicais com o Brasil, isso não é definitivamente o caso de Rosália de Souza. Nascida em Nilópolis (RJ), Rosália está radicada na Itália desde 1989 e acaba de lançar seu terceiro CD, intitulado D’improvviso.

Ainda pouco conhecida no Brasil, Rosália de Souza já tem uma carreira muito bem-sucedida na Europa. Sem dúvida, o encontro com Nicola Conte foi preponderante para a revelação do talento dessa cantora graças ao sucesso do disco Garota moderna (2004), que ele produziu. Embora esse trabalho tenha mergulhado na onda de sucesso da bossa eletrônica naquela época, Rosália soube não se repetir, mudando espertamente o foco musical no segundo trabalho, Brasil precisa balançar (2006), disco essencialmente acústico, gravado no Rio de Janeiro e produzido e arranjado por Roberto Menescal. Nesse ótimo trabalho, Rosália interpreta músicas do próprio Menescal (“Agarradinho”, “Mar amar”), mas também de Tom Jobim (“Vivo sonhando”), Johnny Alf (“O que é amar”), ou ainda “Que bandeira”, de Marcos Valle, que também participou da gravação.

D’improvviso segue o mesmo caminho, propondo um repertório muito bem escolhido e arranjos em que a bossa nova e o samba vão ao encontro do jazz, dando ao disco um swing e uma tonalidade particularmente agradáveis. Obras de compositores renomados – “Banzo” de Marcos Valle, “Carolina Carol Bela” de Jorge Ben, “Cantador” de Dori Caymmi, “Opinião” de Zé Keti, “Sambinha” de César Camargo Mariano ou ainda “Quem quiser encontrar o amor” de Carlos Lyra – convivem harmoniosamente com as composições de jovens artistas como Tomaz di Cunto, compositor paulistano conhecido pelo apelido de Toco, que já tem dois discos lançados e participa de três faixas do disco. Outro achado é a ótima composição “D’improvviso”, de Aldemaro Romero e Terenzi. Enfim, vale ressaltar os excelentes músicos, entre os quais o talentoso trompetista Fabrizio Bosso, que já trabalhou com Phil Woods e Stefano di Battista.

A página oficial de Roberta Gambarini é uma boa opção para descobrir o trabalho dessa cantora:
www.myspace.com/robertagambarini

Da mesma forma, o trabalho de Rosália de Souza pode ser ouvido no endereço
www.myspace.com/rosaliadesouzampb

domingo, 6 de setembro de 2009

Picadinho oriental

(Para 4 pessoas)

A culinária oriental tem sabores e perfumes tão sutis e originais que não há por que estranhar seu sucesso internacional.

Apesar disso, todavia, para muitos ocidentais ainda soa estranho trazer esses sabores, ingredientes e temperos para o fogão, e a comida oriental acaba sendo mais consumida aqui em restaurantes ou por meio dos inefáveis deliveries de gosto padronizado (shoyu, shoyu, shoyu!).

Esta receita, fácil de preparar, não requer ingredientes estranhos nem a destreza dos sushimen. É um modo simples de trazer à mesa uma comida diferenciada e com requinte suficiente para surpreender e agradar a todos.


Ingredientes

  • 600 g de lombo suíno
  • 250 g de batata-doce
  • 1 alho-poró
  • 6 cogumelos chineses pretos (ou shiitakes) desidratados
  • 1 galho de salsão com folhas
  • 1 pedaço de 5 cm de gengibre fresco ralado
  • 1 pimenta malagueta picada
  • 1,5 colher (sopa) de shoyu
  • 1,5 colher (sopa) de saquê
  • 150 ml de caldo de galinha
  • óleo de gergelim
  • maisena
  • água

Preparo

Corte o lombo em cubinhos e deixe-os marinar por 30 minutos no shoyu com saquê.

Enquanto isso, reidrate os cogumelos na água morna.

Corte a batata-doce em cubinhos.

Corte a parte branca do alho-poró em rodelas e pique a parte verde.

Pique o galho de salsão e as folhas.

Em uma panela wok ou frigideira doure os pedaços de lombo no óleo de gergelim (em duas ou três vezes para que fiquem bem dourados) e reserve a marinada.

Na mesma frigideira, refogue rapidamente (1 minuto) o alho-poró, o salsão, o gengibre e a pimenta-malagueta. Acrescente os cogumelos e a batata-doce e deixe por mais 2 minutos.

Despeje os legumes refogados em uma panela.

Acrescente o lombo, a marinada e o caldo de galinha, e deixe cozinhar por 20 minutos em fogo muito brando, mexendo de vez em quando.

Dilua a maisena em um copo com um pouco de água e despeje no preparo para que o molho engrosse.

Sirva em seguida, acompanhado de arroz (branco ou basmati).

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Maurane – Nougaro ou l’espérance en l'homme

A cantora Maurane acaba de lançar o disco Nougaro ou l’espérance en l'homme, em que homenageia o cantor e compositor Claude Nougaro.

Claude Nougaro (1929-2004) foi sem dúvida um dos nomes mais importantes da música francesa dos últimos 50 anos. Nascido em uma família de músicos (o pai era cantor lírico e a mãe pianista), ele começou sua carreira no fim dos anos 1950, em parceria com Michel Legrand, e obteve seus primeiros sucessos no meados dos anos 1960, com músicas como “Une petite fille” e “Cécile, ma fille”. Os anos seguintes vão ser marcados pela colaboração de Nougaro com o pianista de jazz Maurice Vander, com o qual trabalhará por toda a sua carreira. Nougaro sempre procurou a excelência musical, o que o levou a colaborar com ótimos músicos nacionais e internacionais, entre os quais, Eddy Louiss, Pierre Michelot, Michel Colombier, Michel Portal, Aldo Romano, Didier Lockwood, Ornette Coleman e, ainda, Marcus Miller.

Nougaro sempre foi notável pela excepcional qualidade de suas letras e pela forma como soube transcender a sempre difícil arte de fazer versões de canções estrangeiras sem deturpar a essência primeira das obras. Assim, além do jazz – Nougaro escreveu letras em francês para obras de Charles Mingus, Thelonious Monk, Wayne Shorter, Louis Armstrong, Dave Brubeck, Sonny Rollins –, outros ritmos tiveram uma influencia inegável na carreira dele: a música africana, principal inspiração do magnífico disco Locomotive d’or (1973), e a música brasileira. Em 1963 Nougaro veio ao Brasil, e então começou uma história de amor com a música popular brasileira. Essa relação o fez escrever lindas versões para o francês de músicas como “Berimbau” (Vinícius de Moraes/Baden Powell), “O que será” (Chico Buarque) e “Viramundo” (Capinan/Gilberto Gil), que se tornaram grandes sucessos na voz do cantor, além de trabalhar com Baden Powell, então radicado na França.

Por sua vez, Maurane, cantora belga, iniciou sua carreira no começo dos anos 1980 ainda sob o nome artístico Claude Maurane. A partir de 1988, com o disco Danser... e principalmente Maurane (1989), começou a conhecer um grande sucesso na França e em vários países francófonos.

Dotada de uma das mais belas, profundas e afinadas vozes atuais, e de incontestável presença cênica, Maurane vem desenvolvendo uma bem-sucedida carreira com mais de dez discos, entre os quais os excelentes Ça casse (1991), Toi du monde (2000) ou ainda Quand l’humain danse (2003), em que mistura com muito êxito influências da chanson, do jazz, do swing e de ritmos de outros países. Assim como Nougaro, Maurane sempre se aproximou da música brasileira e, ainda em 1989, gravou duas faixas, “Pas gaie la pagaille” e “Fais soleil”, com a participação de Les Étoiles, dupla de cantores brasileiros que teve muito sucesso na França nos anos 1970 e 1980.

Maurane nunca escondeu que uma de suas maiores influências tenha sido Claude Nougaro, e não é surpreendente que esteja agora prestando sua homenagem ao artista neste novo disco. Como escreve no seu site http://www.maurane.be/ a respeito desse projeto: “A obra de Claude me marcou profundamente por sua poesia, musicalidade e a sensualidade que ele mostrava no palco. [...] Antes de mais nada, Claude era um esteta, um homem dedicado à beleza...”

Com os arranjos, swingados mas também delicados, de David Lewis, Fred Pallem, Louis Winsberg, Dominique Cravic e Les Primitifs du Futur, Maurane relê de forma magnífica 16 canções do compositor, entre as quais “Armstrong”, “Toulouse”, “La pluie fait des claquettes” ou “Il faut tourner la page”. De novo, a música brasileira está presente nas interpretações de “Tu verras” (O que será), com a participação do cantor Calogero, e “Bidonville” (Berimbau”). Trata-se de uma belíssima homenagem e ótima introdução ao universo desses dois grandes artistas da música francesa contemporânea.

O site www.maurane.be dá maiores detalhes sobre a produção desse disco, e reproduz também as letras das canções, sendo assim uma ótima ferramenta para conhecer melhor a poesia de Nougaro.

Quem quiser descobrir o universo de Maurane poderá ouvir várias faixas de sua carreira na página
www.myspace.com/mauraneofficielmyspace

A versão ao vivo de “Armstrong” por Maurane está disponível no site YouTube
http://www.youtube.com/watch?v=cot8XhWF28A e a mesma música na emociante interpretação de Nougaro pode ser vista na página http://www.dailymotion.com/video/xovzq_claude-nougaro-amstrong_music

O site oficial de Claude Nougaro
http://www.nougaro.com proporciona uma descoberta por década da carreira do artista, além de disponibilizar trechos de entrevistas e links para outros sites.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Play It Again, Sam – George Shearing: “On Target”

O pianista George Shearing está completando 90 anos esta semana, momento bastante oportuno para relembrar a carreira desse talentoso músico de jazz e destacar um dos trabalhos menos conhecidos entre os muitos que ele realizou ao longo de sua rica carreira.

Nascido em Londres em 13 de agosto de 1919, Shearing chega aos Estados Unidos em 1947. Seu nome começa a se tornar popular nos anos 1950 e início dos anos 1960, quando ele se apresenta com seu quinteto composto por piano, vibrafone, guitarra, baixo e bateria. Nessa fase, amplamente influenciada por músicos como Lionel Hampton e Nat King Cole, Shearing realiza alguns importantes discos seja instrumentais, seja em colaboração com cantoras como Peggy Lee, Nancy Wilson e Dakota Stanton, além do próprio Nat King Cole.

Se os anos 1970 não são tão produtivos, apesar do brilhante disco solo My Ship (1974), a carreira de Shearing conhece um novo impulso nos anos 1980, quando ele assina com a gravadora Concord e realiza uma série de discos primorosos, entre os quais Two for the Road (1980) com Carmen McRae, On a Clear Day (1980), Live at the Café Carlyle (1984) ou ainda Breaking Out (1987).

É nessa época que Shearing vai desenvolver uma parceria muito bem-sucedida com Mel Tormé, em discos como A Vintage Year (1987) ou Mel and George ‘Do’ World War II (1990).

Em 1992, Shearing assina com a gravadora Telarc e continua realizando vários discos muito interessantes, como How Beautiful is Night (1992), com arranjos orquestrais de Robert Farnon. Assim, aos 90 anos, Shearing já gravou mais de 100 discos, além de ter composto inúmeras músicas entre as quais a famosa “Lullaby of Birdland”, em uma das mais prolíficas carreiras entre os grandes nomes do jazz.

O disco On Target data de 1982 e é mais uma colaboração entre George Shearing e o compositor, maestro e arranjador canadense Robert Farnon (1917-2005). Shearing está acompanhado por Louis Stewart (guitarra) e Niels Henning Orsted-Pedersen (Baixo). Entre as faixas que compõem o repertório se encontram clássicos como “Last Night When We Were Young” (Arlen/Harburg), “A Nightingale Sang in Berkley Square” (Sherwin/Maschwitz) ou ainda “Portrait of Jennie” (Robinson/Burdge).

Embora gravado em momentos e lugares diferentes – o trio de Shearing gravou em Villgen (Alemanha) em setembro de 1979, enquanto a orquestra de Farnon gravou em Londres no ano seguinte –, o disco mostra uma verdadeira simbiose entre a delicadeza musical de Shearing, bastante influenciado por compositores como Debussy ou Satie, e a orquestração de Farnon, fazendo com que as notas do piano dialoguem magnificamente com as cordas, e tornando a audição desse disco um momento realmente prazeroso.

Infelizmente, produzido e lançado originalmente em LP pela gravadora alemã MPS, o disco está fora de catálogo há muito anos. Entretanto, pode ser encontrado na internet em alguns sites de compartilhamento de arquivos musicais.

Informações complementares sobre George Shearing se encontram no site www.georgeshearing.net

Quem quiser conhecer melhor Robert Farnon pode acessar: www.rfsoc.org.uk/

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Les Girls

Apesar de o ambiente musical estar cada vez mais americanizado, ‘beyoncezado’ e ‘britneyzado’ (isso dói!), existem ainda cantos de criatividade em que melodia não rima obrigatoriamente com batidas frenéticas e afinação vocal com voicoder. As três cantoras seguintes, embora à primeira vista não apresentem nada em comum, merecem ser destacadas pela qualidade do trabalho que produzem e por, de várias formas, tecerem mais uma ligação entre o Brasil e a França.

Barbara Carlotti está se apresentando esta semana nos palcos de São Paulo dentro da programação do Ano da França no Brasil. Após um primeiro disco, Les lys brisés (Os lírios partidos), que foi muito bem recebido pela critica, Barbara Carlotti lançou em 2008 o CD L’idéal, que foi consagrado entre as melhores produções francesas daquele ano. O trabalho da cantora mistura com perfeita harmonia a tradição literária francesa com a música pop anglo-saxônica, o que fez com que Carlotti fosse comparada à cantora Nico. Barbara Carlotti se apresentou no Bourbon Street e tem ainda dois shows marcados para os dias 5 e 6 de agosto, no Sesc Vila Mariana e no Sesc Santo André.

Não é mais necessário apresentar Zélia Duncan. A cantora vem desenvolvendo com serenidade e muito bom gosto uma carreira sempre original e pessoal, em que sabe equilibrar composições pessoais, influências (entre as quais o legado fundamental de Itamar Assumpção) e projetos originais, como a participação na reunião dos Mutantes ou a parceria com Simone. Zélia acaba de lançar seu novo trabalho, Pelo sabor do gesto, produzido, entre outros, por John Ulhoa, da banda Pato Fu. O disco tem a particularidade de apresentar duas ótimas versões que Zélia escreveu para canções que o compositor francês Alex Beaupain fez para o filme de Christophe Honoré Canções de amor, que obteve o César de melhor trilha original em 2008. Inspirando-se tanto na chanson tradicional quanto no som dos anos 1980 ou ainda no jazz, Beaupain está se impondo como um dos mais originais compositores e intérpretes da nova geração francesa.

Por sua vez, a cantora Céu está lançando seu segundo trabalho, denominado Vagarosa. Após um primeiro disco particularmente elogiado e que teve ótima divulgação, Céu volta com um trabalho que segue a mesma linha. As composições, essencialmente inspiradas na música popular brasileira, são otimamente servidas por modernos arranjos e pela utilização de grooves climáticos. A voz de Céu tece uma envolvente teia em que o ouvinte se deixa prender com o maior prazer. Embora profundamente brasileiro na sua essência, o trabalho de Céu remete também a uma tradição mais européia de conceber o canto e a música. Além disso, referências como Massive Attack ou Serge Gainsbourg são onipresentes. Aliás, não é de surpreender que, assim como Cibelle, Céu tenha sido descoberta e lançada na Europa antes de aportar na mídia brasileira.

O site de Barbara Carlotti é www.barbaracarlotti.com além da página MySpace www.myspace.com/barbaracarlotti.

As informações sobre o novo disco de Zélia Duncan encontram-se no site http://www2.uol.com.br/zeliaduncan/ e quem quiser conhecer melhor Alex Beaupain pode acessar www.myspace.com/alexbeaupainpop.

Músicas do novo disco de Céu podem ser ouvidas na página http://www.ceumusic.com/ além das informações disponíveis no www.myspace.com/ceuambulante

terça-feira, 28 de julho de 2009

Salve, João!


Após seis anos sem um disco de músicas inéditas (Malabaristas do sinal vermelho data de 2003), João Bosco acaba de lançar Não vou pro céu, mas já não vivo no chão. Este disco constitui um marco na discografia do artista por registrar a retomada da parceria com Aldir Blanc após 22 anos. Outros parceiros de João Bosco participam do trabalho como seu filho Francisco Bosco, Carlos Rennó ou ainda Nei Lopes.

A outra surpresa se deve ao fato de ser um disco mais “contido”, já que várias faixas primam pelo despojamento dos arranjos em que domina o violão. Por sua vez, João Bosco parece às vezes ter suavizado seu canto, e se os scats continuam presentes em algumas faixas, há um verdadeiro propósito de simplificação da maneira de cantar que, sem dúvida, beneficia a apreensão das letras.

Independentemente dessas características, o lançamento de um disco de João Bosco é com toda a certeza um evento importante para a música brasileira e, por si só, merece toda a devida atenção.

Em 40 anos de carreira, João Bosco teceu uma verdadeira obra musical, densa e rica. Os anos 1970 revelaram a dupla Bosco/Blanc, tão magnificamente interpretada por vários artistas, entre os quais se destaca claramente Elis Regina. Os anos 1980 – apesar de alguns críticos terem torcido o nariz quando João Bosco e Aldir Blanc desfizeram a parceria e João começou a modificar e desconstruir sua forma de interpretar – foram ricos em obras-primas como Gagabirô (1984), Cabeça de nego (1986) ou ainda Bosco (1989). Os anos 1990 também foram de grande êxito musical, com ótimos trabalhos como Zona de fronteira (1991), Na onda que balança (1994) ou ainda Na esquina (2000).

João Bosco é um eterno viajante que percorre a música em toda a sua força pluridimensional, sabendo como ninguém combinar o samba, a brejeirice, o swing, o jazz, as raízes africanas e árabes. Aliás, não é à toa que Caetano Veloso, no seu disco Zii e Zie e sua proposta musical de transcender o samba, escolheu reler de forma muito interessante “Incompatibilidade de gênios” (1976).

Por esses motivos, podemos somente lamentar que a maior parte da obra de João Bosco esteja atualmente fora de catálogo, impedindo que um novo público a conheça melhor, a não ser por meio de alguns discos ao vivo e coletâneas, que não abrangem toda a riqueza desse artista. Dessa forma, o lançamento do novo disco se tornar algo mais do que essencial.

O site oficial de João Bosco é um bom meio de abordar o artista, embora lamentavelmente não tenha ainda sido atualizado com o novo disco http://www.joaobosco.com.br

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Eventos Culturais 2

Voltando ao assunto do Ano da França no Brasil, não posso deixar de parabenizar a iniciativa de descentralização da programação, que passa por muitos estados e cidades e não se limita ao clássico eixo cultural Rio de Janeiro–São Paulo.

Assim, o estado de Minas Gerais vai receber vários eventos culturais até o mês de novembro que vale a pena conferir:

A cidade de Juiz de Fora está recebendo até o dia 28 de julho o 20º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga. Entre outros, no dia 24, na Igreja do Rosário, a apresentação do conjunto Le Poème Harmonique, com obras de Michel R. de Lalande e Marc Antoine Charpentier; e no dia 25 de julho, no Teatro Pró-Arte, o Grupo Lune et Soleil, composto por músicos brasileiros e franceses de formação erudita e jazz, que interpretará músicas do cinema francês, de Michel Legrand e Vladimir Cosma, e obras de Gershwin.

(Le poème Harmonique)

Juiz de Fora também receberá, de 3 a 8 de agosto, apresentações de rua, como a Compagnie La Truc / Cyril Hernandez, e em novembro a turnê Déclic – Minifestival de Música de Câmara Francesa.

Vários eventos vão acontecer ainda em Minas Gerais, principalmente nas cidades de Belo Horizonte e Ouro Preto.

Entre os outros estados contemplados nas comemorações, vale destacar Bahia, Pernambuco, Ceara e Amazonas, no Norte e Nordeste, e estados mais acostumados a receber eventos internacionais, como Paraná e Rio Grande do Sul, e o Distrito Federal.

Assim, de maio a outubro deste ano, Michel Legrand irá se apresentar com Sinfônicas Brasileiras em São Paulo, Ribeirão Preto (SP), Salvador (BA), Recife (PE), Belém (PA), Cuiabá (MT), Belo Horizonte (MG) e Vitória (ES).

Além de eventos culturais, o Ano da França promove encontros temáticos, vinculados a assuntos que dizem respeito a tecnologia, profissionalização, ciências, etc. Assim, vale destacar o I Fórum Franco-Brasileiro, "Ciência e Sociedade - Biodiversidade, Saúde, Desenvolvimento Sustentável Para Todos", que acontecerá em Macapá (Amapá), de 16 a 23 de outubro.

Por fim, o músico Edgard Scandurra e o grupo Les Provocateurs estão fazendo uma série de apresentações no Sesc Paulista, em que interpretam músicas de Serge Gainsbourg, simpática iniciativa que merece ser destacada.

Quem quiser acompanhar essa formidável profusão de encontros entre os dois países pode encontrar mais detalhes sobre datas, localizações e eventos no site http://anodafrancanobrasil.cultura.gov.br/ do Ministério da Cultura, que oferece um sistema de busca por tema, mês e estado.

A programação do Festival Internacional de Música Colonial e Música Antiga de Juiz de Fora se encontra no site http://www.promusica.org.br

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Eventos Culturais

O Ano da França no Brasil oferece várias oportunidades interessantes e lúdicas de melhor conhecer a cultura francesa. Assim, duas exposições chamaram mais especialmente minha atenção:

O Museu da Língua Portuguesa apresenta até o dia 13 de setembro a mostra O Francês no Brasil em Todos os Sentidos, em que são destacados os pontos de encontro entre os dois idiomas, não somente na literatura, mas também em várias áreas, como a moda, a culinária, a música ou a dança. Embora, a meu ver, um tanto sucinta demais, a mostra tem a vantagem de ser bastante didática e interativa, despertando o interesse dos visitantes. Além do mais, o Museu da Língua Portuguesa é um maravilhoso espaço cultural em plena Estação da Luz, dentro do ambicioso projeto de renovação do centro de São Paulo que, por si só, sempre merece ser lembrado.

O Instituto Tomie Ohtake, por sua vez, recebe até o dia 7 de setembro 84 obras de Jean Dubuffet (1901-1985), entre pinturas, esculturas, desenhos e litografias. Dubuffet foi um artista muito prolífico, cuja obra, que apresenta várias fases, é constituída por milhares de criações realizadas entre 1942 e 1985.

Considerado como um dos fundadores do Art Brut, termo inventado por ele, Dubuffet é mais conhecido pela fase intitulada ciclo Hourloupe, entre 1962 e 1974, caracterizada por traços em forma de quebra-cabeça ou rabiscos sobre fundo branco com espaços preenchidos por cores. Realizado inicialmente no formato de desenhos e pinturas, o ciclo Hourloupe ganha novas dimensões a partir do fim dos anos 1960, com a realização de esculturas e baixos-relevos arquitetônicos, e a utilização de novos materiais.

Conhecido também pelas surpreendentes pinturas e os retratos inspirados em desenhos feitos por crianças e doentes mentais, Dubuffet sempre foi atraído pela experimentação, a inovação e a audácia, oscilando entre figuração e abstração, em que a espontaneidade reina.

Para maiores informações sobre as duas exposições:

http://www.estacaodaluz.org.br/

http://www.institutotomieohtake.org.br/programacao/exposicoes/jean/jean.html

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Play it again, Sam – Tom Waits – Foreign Affairs

A carreira de Tom Waits deslanchou internacionalmente no começo dos anos 1980 com a trilha do filme de Francis Ford Coppola O fundo do coração (1982). Foi justamente nessa época que o artista mudou de gravadora, partiu para trabalhos bastante experimentais, como Swordfishtrombones (1983) ou Rain Dogs (1985), com arranjos em que o uso de percussões e sopros aliados à rouquidão tão específica da voz de Waits favorecia uma construção musical bastante brechtiana.

O disco Foreign Affairs é de 1977, portanto anterior a essas mudanças e talvez menos conhecido do grande público. Trata-se do 5º disco da carreira do compositor e talvez seja o trabalho em que Waits mais se aproxima do blues e do jazz.

Além do quinteto composto por Tom Waits: piano e vocais, Jim Hughart: baixo, Shelly Manne: bateria, Frank Vicari: saxofone tenor, Jack Sheldon: trompete, o disco também conta com a participação do clarinetista Gene Cipriano na faixa "Potter's field". Os incríveis arranjos de cordas de Bob Alcivar (que trabalhou com os Beach Boys, The Association, Sergio Mendes, Jack Jones, entre outros) criam uma atmosfera musical que faz com que esse disco lembre por vezes o clima típico dos filmes noir dos anos 1940 e 1950. A emocionante balada bluesy “Muriel” compete com a efusão verbal de “Potter’s field”, sem dúvida a faixa mais jazzística do disco, junto com o medley "Jack & Neal/California, here I come", cujo clima remete ao de filmes como Os assassinos (The Killers – Robert Siodmak, 1950), O segredo das joias (Asphalt Jungle – John Houston, 1950), ou ainda Ascensor para o cadafalso (Ascenseur pour l’échafaud – Louis Malle, 1957).

O disco traz também a deliciosa canção “I never talk to strangers”, com a brilhante participação de Bete Midler em um bem-humorado dueto com Waits.


Em 1978, Tom Waits produziu ainda Blue Valentine, que, de certa forma, é o irmão gêmeo de Foreign Affairs, apesar de ser mais elétrico e menos orquestral. Os dois discos representam bem o estilo do artista nessa primeira fase da carreira, que encontrará sua quinta-essência alguns anos depois, no disco One from the Heart.

Por fim, vale notar a ótima foto em preto-e-branco que ilustra a capa do disco, cujo autor é George Hurrel, fotógrafo bem conhecido pelos retratos que fez de artistas de Hollywood. A mulher que abraça Waits na foto é a cantora Ricky Lee Jones, namorada do artista na época.

Para mais informações sobre Tom Waits, recomendo o site
http://www.tomwaitslibrary.com

domingo, 5 de julho de 2009

Daniel ou Natanael?

(Van Gogh, Natureza-morta com frutas - 1887)

Dois textos publicados durante esta semana na Folha de SP chamaram minha atenção por serem convergentes, embora a priori tratassem de temas diferentes.

No dia 29 de junho, Álvaro Pereira Júnior dedicou sua coluna Escuta Aqui a Michael Jackson, destacando que com a morte do artista acaba uma época que não tem volta. “Foi o cara que vendeu dezenas de milhões de discos, que vivia como marajá, pendurado na gravadora, que gastava zilhões para fazer videoclipes.” E cita a matéria publicada por Jon Pareles no New York Times, em que o crítico analisou que Jackson era um paradoxo, considerado prodígio enquanto criança, e infantilizado uma vez adulto.

Por sua vez, João Pereira Coutinho publicou no dia 30 de junho uma crônica muito bem-humorada, intitulada Os normalopatas, em que declara que, ao ler o relato da última reunião da American Psychiatric Association sobre as alterações que devem ser feitas no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder, percebeu que sofre de boa parte das novas doenças mentais que os cientistas querem acrescentar à lista já existente. Assim, entre compulsão por comida, vício em internet ou e-mail, compulsão por compras, preconceitos e fúrias incontroladas, o colunista assustou-se ao perceber que poderia se encaixar no perfil do perfeito demente.

Ao criar um paralelo, talvez audacioso, entre os dois jornalistas, vejo que, de fato, ambos mostram que saímos definitivamente de uma época para entrar em outra. Não há dúvida que Jackson, assim como muitos outros artistas, simbolizou uma época em que criatividade rimava com audácia. Havia algo saudável em reconhecer a impertinência artística e comportamental, e o dinheiro era um combustível necessário à manifestação dessa ousadia.

Os tempos agora são outros, e os artistas mais conceituados ou se tornam verdadeiros pastores pregando a Palavra divina da boa consciência universal, como Bono ou Sting, ou marionetes sem alma oriundas de vagos “Clubes do Mickey”. Aliás, Britney Spears, por sua repentina e surpreendente "volta à normalidade”, não mereceria ser nomeada “mulher de honra de Stepford”?

Assim, percebemos que, aos poucos, entramos na inquietante época da “normalidade obrigatória” em que (politicamente) correto, saúde, equilíbrio, preservação são palavras de ordem. Superamos Orwell ao nos tornarmos nossos próprios big brothers, em um processo insinuante e assustador de autocontrole, muitas vezes inconsciente, em que assimilamos regras de boa conduta em doses homeopáticas que, porém, podem ser fatais.

Se nosso comportamento, nosso apego, nossa afetividade, por mais banalmente humanos que sejam, correm o risco de ser vistos como desvios, se a ousadia ou a rebeldia artística é percebida como ato de insanidade, podemos perder os sentidos essenciais do gosto e do olfato, para mergulhar na insipidez.

E em vez de conceber a possibilidade de uma ilha como Houellebecq, não seria melhor provarmos os frutos da terra como Gide? Antes sermos o discípulo Natanael do que o clone Daniel!

terça-feira, 30 de junho de 2009

Abobrinhas gratinadas à moda de Lyon


(Para 4 pessoas)

A cidade de Lyon, situada na confluência dos rios Ródano (Rhône) e Saône, é sem dúvida o maior e mais importante centro gastronômico da França, com ótimos restaurantes que se contam entre os melhores do país, e levam à mesa uma culinária rica, criativa e deliciosa.

Assim, esta linda cidade, a segunda maior da França, hospeda o celebrado restaurante de Paul Bocuse e o Instituto do mesmo chef, uma das maiores universidade de gastronomia do mundo, além de receber eventos internacionais vinculados à gastronomia, como o SIRHA, Salão Internacional de Restauração, Hotelaria e Alimentação.

A região deu origem também a pratos cotidianos típicos, entre os quais esta preparação de abobrinhas.

Trata-se de uma receita fácil, econômica e ótima para uma refeição convivial nos dias de inverno.

A receita original não tem tomate. Porém, acho que dá um leve toque de frescor ao prato, além de deixá-lo mais colorido.

O uso do tomilho e da noz-moscada também é facultativo, dependendo do gosto de cada um.

Aconselho ralar o queijo na hora. Na falta de gruyère, o emmental serve perfeitamente.

Ingredientes

· 4 abobrinhas médias
· 3 cebolas grandes
· 100 g de tomate-cereja
· 60 g de queijo gruyère ralado
· tomilho fresco
· noz-moscada
· azeite
· pimenta-do-reino
· sal

Preparo

Lave bem as abobrinhas e corte-as em rodelas médias sem descascar.

Corte as cebolas em anéis médios.

Corte os tomates-cereja em dois.

Em uma frigideira antiaderente, doure separadamente em fogo alto as rodelas de abobrinhas e os anéis de cebola no azeite.

Acrescente o sal, a pimenta-do-reino, a noz-moscada e reserve.

Chamusque rapidamente os tomates-cereja na mesma frigideira; acrescente sal, pimenta-do-reino e tomilho fresco e reserve.

Em uma forma refratária, acomode em camadas sobrepostas os anéis de cebola e as rodelas de abobrinha.

Finalize com o queijo ralado e os tomates.

Leve ao forno bem quente para gratinar.

Sirva em seguida.

domingo, 28 de junho de 2009

The Man in the Mirror


Ao saber da morte de Michael Jackson, na última quinta-feira, senti uma infinita tristeza, como se eu estivesse perdendo um ente querido.

Porém, o único disco que comprei do artista foi Thriller, obra-prima da música pop lançada em 1982, ainda na época remota das bolachas.

Antes de Thriller, Jackson era um perfeito desconhecido no meu universo musical – descobri e apreciei Off the Wall­­ depois de ouvir Thriller – e a Jackson Family sempre foi um fenômeno tipicamente norte-americano, de pouca repercussão na França.

Depois de Thriller, não prestei tanta atenção à carreira do artista e acabei sabendo dele muito mais pelo freak show que o acompanhou por muitos anos do que por motivos artísticos.

Enfim, como todo mundo, fiquei curioso quando ele anunciou sua volta aos palcos, embora eu tivesse a sensação que essa decisão fosse mais por motivos principalmente financeiros que artísticos, e não esperasse que a fênix renascesse de suas cinzas sob os céus londrinos.

Sendo assim, não havia motivo sequer para tanta tristeza e para explicar o sentimento de perda que a notícia provocou em mim.

Contudo, nos últimos dias percebi que a comoção é geral e que várias pessoas sentiram a mesma emoção que eu, embora elas também não tivessem sido fãs ardorosas do artista.

Aí, lembrei de 1977 e da morte de Elvis Presley. Na época eu era adolescente e mal sabia quem era o "King of Rock'n'Roll". Para mim, tratava-se de um artista meio gordo e com roupas cafonas que se apresentava nos palcos de Las Vegas.

Entretanto, lembro que meus pais ficaram bastante abalados pela notícia, embora em casa não tivesse nenhum disco do cantor, a não ser um antigo 45 rpm de "Hound Dog", comprado por eles havia muito anos.

E depois, lembrei também da tristeza que senti ao saber da morte de John Lennon e de Freddie Mercury, dois artistas muito mais próximos do meu gosto musical do que o próprio Jackson.

Então, é certo que a comoção gerada pela morte de Michael Jackson ultrapassa o sentimento da perda da pessoa em si para alcançar uma dimensão bigger than life, como foi a representação do poder do próprio artista no imaginário coletivo.

Não há dúvida de que procuramos sempre, mesmo que inconscientemente, ultrapassar nossas limitações naturais. Para fazê-lo, escolhemos alguns eleitos que, por terem dons excepcionais ou simplesmente por estarem no lugar certo na época certa, transformamos em ídolos ou super-heróis por meio de cultos que são verdadeiros atos de sublimação fetichista.

Assim Michael Jackson foi eleito o “Rei do Pop”, o artista universal cujo moonwalk virou fenômeno social universal, em que milhares de pessoas se espelharam. E sua influência artística é tão durável que, ainda hoje, o novo ídolo pop internacional, Justin Timberlake, não esconde, na sua música e nos seus passos de dance, em quem ele se espelhou.

E não há também dúvida de que ídolos ou super-heróis não podem morrer, - pelo menos nunca no auge da carreira ou antes do fim do curso "normal" da vida - porque, ao falecerem, quebram o espelho e nos devolvem, da mais cruel maneira possível, à mera condição de seres finitos e limitados. Então, ao chorar a perda que sentimos com a morte deles, choramos de fato nossa própria perda. Por isso tamanha comoção.

sábado, 20 de junho de 2009

Coralie Clément no Brasil

O Ano da França no Brasil traz aos palcos de São Paulo a cantora francesa Coralie Clément, que irá se apresentar na cidade no fim deste mês, no dia 23 no Bourbon Street e nos dias 26 e 27 no Sesc Pompéia.

Filha de músico e irmã do excelente cantor e compositor Benjamin Biolay – que, por sua vez, compôs “Jardin d’hiver” para Henri Salvador e já se apresentou no Brasil em 2008 –, Coralie Clément iniciou sua carreira discográfica em 2001, com o CD Salle des Pas Perdus, que teve ótima repercussão não somente na França, mas também em diversos países, como Alemanha ou Japão. Assim, a canção “Samba de mon cœur qui bat”, composta por Biolay, fez parte da trilha da comédia romântica Alguém tem que ceder (2003), com Jack Nicholson e Diane Keaton.

Trata-se de um disco bastante acústico, em que Coralie Clément não esconde suas influências musicais, entre as quais Serge Gainsbourg e cantoras como Françoise Hardy ou Jane Birkin.

Em 2005 ela lança seu segundo CD, Bye Bye Beauté (que teve edição nacional na época), de tonalidade mais rock, notadamente por causa da participação de Daniel Lorca, do grupo Nada Surf, que divide a produção do disco com Biolay.

Em 2008 é lançado Toystore, de novo produzido por Biolay, em que se destaca a canção ”C’est la vie”, além de dois duetos, “Je ne sens plus ton amour” com Etienne Daho e “Sono io” com Chiara Mastroinani. O disco remete ao ambiente acústico do primeiro CD e traz certa maturidade tanto no canto quanto nos temas abordados nas letras.

Vale conferir o universo de Coralie Clément, em que se encontram em perfeita harmonia a chanson francesa, o pop inglês e também a bossa nova.

O site da cantora http://www.myspace.com/coralieclment traz informações sobre sua carreira, além de algumas músicas do mais recente CD.

Para quem quiser conhecer também o universo musical de Benjamin Biolay, http://www.benjaminbiolay.com/ e http://www.myspace.com/benjaminbiolay

quinta-feira, 18 de junho de 2009

A divina comédia – existe verdadeira democracia sem cidadania?

Alguns acontecimentos recentes levam à reflexão sobre democracia e cidadania.

É incontestável que alguns países emergentes, entre os quais o Brasil desde o fim dos anos 1980, seguem um formidável processo de aprendizagem da cidadania, em que todos os membros da sociedade são convidados a ter voz ativa, não somente na hora de votar, mas também como guardiões permanentes do princípio de garantia do modelo constitucional democrático.

Este modelo político e societal tem por fundamento princípios imprescindíveis a todo Estado democrático, que são a transparência das instituições e o respeito às leis, além naturalmente de uma boa governança.

A aprendizagem do modelo democrático é em si um processo iniciático que leva progressivamente o aprendiz a conhecer e dominar as ferramentas que usa, no intuito de potencializar seu poder decisório de forma eficiente e produtiva.

Nesse processo iniciático, é incontestável que a mídia tem um papel altamente didático, ao denunciar sistematicamente fatos relevantes de entrave ao processo de transparência das instituições e de desrespeito às leis, sejam estes vinculados ou não a esquemas de corrupção política e/ou financeira.

Por outro lado, não há dúvida que o processo democrático esteja naturalmente vinculado ao aumento do poder aquisitivo, como já o destacou o constitucionalista Maurice Duverger.

A noção de poder aquisitivo pode ser vista de duas maneiras: por um lado, o aumento da renda individual do cidadão, e consequentemente, a melhoria de sua educação, de seu entendimento e de sua participação na vida social. Por outro lado, o desenvolvimento econômico, que torna o país emergente parceiro econômico internacional, obrigando-o a garantir a manutenção de instituições democráticas e transparentes.

De certa forma, o processo de globalização, ao criar mecanismos políticos e financeiros internacionalmente ligados, também cria obrigações e garantias políticas interligadas, cujo desrespeito é fator excludente de participação no mesmo processo.

Todavia, a democracia não pode realmente vingar se não for amparada por uma verdadeira compreensão e aceitação da cidadania por todos os componentes da sociedade. Ao tratar da cidadania, não estou somente me referindo ao contrato social de Rousseau, em que cada indivíduo se coloca à disposição da suprema direção da vontade geral.

Entendo como cidadania a compreensão, a aceitação e o respeito às regras e leis existentes, tanto na sua concepção quanto na sua aplicação e seus limites. O cidadão tem que entender o que lhe é permitido, e o que está além e aquém de seu alcance. Assim, a noção de permissão não diz respeito ao que é simplesmente autorizado por lei ou decreto, mas ao que socialmente é permitido dentro das normas do civismo social.

Assim, o indivíduo, ao receber determinado cargo ou estatuto social, encontra-se imbuído de deveres e direitos. O indivíduo cidadão, ao se deparar com os mesmos deveres e direitos, entende, aceita e respeita os limites impostos pela própria natureza aos direitos e às responsabilidades a ele confiados, e tende a agir com civismo e transparência.

Agora, o indivíduo que se aproveita dos direitos vinculados ao cargo ou estatuto que lhe é atribuído, embora tenha plena consciência de que, por motivos outros que não os de puro direito, se encontra fatualmente aquém ou além desses direitos, desconhece as regras básicas de civismo e transparência.

Assim, não basta implantar, por lei ou regras corporativas, o direito a verbas tais como ajuda de custo, de viagem ou de moradia, para que esses valores sejam intrinsecamente ligados ao cargo. É ainda preciso que o titular do cargo esteja em condições fatuais ou financeiras de pleitear o benefício desse direito.


Da mesma forma, não basta constatar que uma instituição nunca coibiu a contratação de familiares para que isso crie um direito à absolvição implícita dos atos cometidos, como se fossem atos normais de exercício do poder.

Quem está encarregado de poder representativo e dos direitos vinculados a esse poder e faz conscientemente uso impróprio deles, ainda que dentro de um âmbito legal, não se comporta de forma ética. Ao se prevalecer dessa legalidade para erradicar qualquer questionamento quanto à utilização dos direitos e regalias vinculados à sua função, o indivíduo deturpa a noção de legitimidade, desconhece e até despreza seu dever e papel de cidadão.

Ao comportar-se dessa forma, acaba por se tornar culpado de falsidade cívica e anula o próprio princípio de transparência que deve prevalecer para o fortalecimento das instituições democráticas.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Coup de cœur à Marc Collin

Marc Collin é arranjador e produtor, junto com Olivier Libaux, do Nouvelle Vague, grupo que está lançando este mês seu 3º opus, com a participação especial de músicos convidados, como Martin Gore, do grupo Depeche Mode; Ian McCulloch, do Echo and the Bunnymen; e Terry Hall, dos Specials.

Nouvelle Vague é um projeto artística e comercialmente bem-sucedido de releitura de músicas dos anos 1980, principalmente do repertório punk e new wave, em estilo bossa-nova e acústico. Os dois primeiros CDs, Nouvelle Vague (2004) e Bande à part (2006), venderam cerca de 500.000 cópias e tiveram a participação especial de cantoras que em seguida desenvolveram com sucesso carreira solo, como Camille ou Helena Noguera. O novo disco, intitulado simplesmente 3, segue os padrões dos dois primeiros, mas com a particularidade de ter participação especial de músicos oriundos de bandas cujas músicas constituem o repertório do novo trabalho. Entre as releituras, destacam-se “Master and Servant”, do Depeche Mode; “Road to Nowhere”, dos Talking Heads, ou ainda “God Save the Queen”, dos Sex Pistols.

Marc Collin, assim como Alex Gopher ou Daft Punk, está entre os artistas que, no fim dos anos 1990, fizeram parte da “cena de Versailles”, no movimento de música eletrônica francesa chamado “French Touch”, que teve repercussão mundial com artistas como Air ou Étienne de Crécy, entre outros.

Além do projeto Nouvelle Vague, Collin tem outras produções muito interessantes que remetem a influências pop e jazz, e escreve também trilhas de filmes. Ele se inspira igualmente na cultura dos anos 1960, como mostra o CD Les Pétroleuses (2002) – título homônimo ao de um filme com Brigitte Bardot e Claudia Cardinale –, em que compõe uma trilha sonora imaginária para um filme, que seria ambientado nessa época.

Em 2007, ele compõe e produz o CD Two for the Road, referência direta ao filme de Audrey Hepburn, em que inventa um roteiro narrando a história de um casal com melodias de inspiração eletroacústica. Em 2008, é a vez do ótimo projeto Hollywood, Mon Amour, releitura de músicas de cinema dos anos 1980, na mesma veia dos projetos do grupo Nouvelle Vague, com participação especial de artistas como Yael Naim, Cibelle ou ainda Skye.

Além do lançamento do novo CD de Nouvelle Vague, Marc Collin participa igualmente no excelente CD Private Domain, em que a artista Iko, de formação clássica, faz uma releitura pop e eletrônica de obras clássicas de compositores como Fauré, Monteverdi, Rameau ou Purcell, com participações especiais, entre as quais Emilie Simon e Murcof.

A página MySpace do Nouvelle Vague disponibiliza para escuta várias faixas do novo disco: http://www.myspace.com/nouvellevague

Sobre Hollywood, Mon Amour, visite o site http://www.hollywoodmonamour.com/
com entrevista em que Collin detalha esse projeto.

Algumas faixas do CD Private Domain podem ser ouvidas no site da gravadora Naïve http://en.naive.fr/#/artist/private-domain

quinta-feira, 4 de junho de 2009

À procura de M. Gainsbourg

Na sua última visita ao Brasil, Charles Aznavour teria declarado a um jornal brasileiro que a chanson francesa é importante principalmente graças às letras, e não à música. A meu ver, o artista não deixa de ter razão e de ser omisso ao mesmo tempo. Há de fato grandes letristas, mas também grandes compositores de música popular francesa. Sem querer comparar com a música popular brasileira, que, a meu ver, em ambos os quesitos é inigualável, a canção francesa deixou suas pegadas na música popular internacional por meio de canções como “La mer”, “La vie en rose”, “Les feuilles mortes”, “Et maintenant” e, claro, “Je t’aime moi non plus” de Serge Gainsbourg.

Gainsbourg certamente foi o maior autor de música popular da França dos últimos 40 anos, e sua influência ultrapassou as fronteiras não somente do país, mas também da francofonia, para alcançar verdadeira dimensão planetária.

O Sesc Paulista apresenta uma exposição sobre o artista até o dia 7 de setembro, dentro das comemorações do Ano da França no Brasil, e acredito que, para quem ainda não o conhece, seja uma ótima maneira de ter uma primeira abordagem com esse artista complexo e múltiplo.

http://www.sescsp.org.br/

Gainsbourg nasceu em 1928, filho de judeus russos que migraram para a França na época da Revolução Bolchevique de 1917. Nos anos 1950, começou por se dedicar à pintura (sua grande paixão), para em seguida iniciar uma carreira de cantor crooner e pianista de cassino e de clubes noturnos. A cantora Michèle Arnaud, da qual foi músico no fim dos anos 1950, ao descobrir suas composições, incita-o a gravar os primeiros discos, bastante influenciados pelo jazz pós-guerra, e que fazem sucesso junto a um público restrito.

Entretanto, a inegável qualidade dessas canções faz com que Gainsbourg comece a compor para vários artistas da época, principalmente mulheres, entre as quais Juliette Gréco e Petula Clark. O sucesso mais amplo chega, enfim, com as canções “Comment te dire adieu”, cantada por Françoise Hardy, e “Les sucettes”, com France Gall, que são as premissas do encontro de Gainsbourg com o universo pop.

Em 1967, ele tem um romance com Brigitte Bardot, para a qual compõe algumas de suas mais famosas canções, como “Initials BB”, “Bonnie and Clyde” e “Harley Davidson”. Em 1968, ele encontra Jane Birkin, com quem ficará até 1978. Juntos eles gravam "Je t’aime moi non plus", sucesso planetário, composto primeiramente para Bardot. A atriz chegou a gravar a canção, mas se opôs ao lançamento comercial até 1986.


(Gainsbourg com Jane Birkin)

A partir desse momento, Gainsbourg alcança a fase áurea de sua carreira musical com o lançamento do disco mítico L’Histoire de Melody Nelson (1971), seguido por Vu de l’Extérieur (1973), Rock aroud the Bunker (1975) e L’Homme à la Tête de Chou (1976). Esses discos, se fizeram pouco sucesso de vendas na época, são hoje considerados obras essenciais não somente para a história da canção francesa como pela influência que têm junto a muitos artistas, entre os quais Beck, Moby, Placebo, Nick Cave ou Massive Attack, e outros.

Paralelamente, Gainsbourg se torna cada vez mais dependente do cigarro e do álcool – sofre um infarto em 1973 – e tem um comportamento altamente provocador que choca a França ‘giscardista’ do fim dos anos 1970. Essa fase da carreira do artista, que seguirá até sua morte, em 1991, tem seu auge com o lançamento do disco Aux Armes et Cœtera (1979), produzido na Jamaica com os músicos de Bob Marley e em que ele grava a Marselhesa em versão reggae, com coro de cantoras jamaicanas no refrão. O disco se torna um grande sucesso comercial, mas Gainsbourg sofre ameaças de extremistas da direita e o próprio exército francês irá até impedir a realização de um show do artista. Nesses últimos anos, Gainsbourg vai criar um alter ego, chamado Gainsbarre, que será o duplo transgressivo do artista, como Dr Jekyll e Mr Hyde, dupla infernal que, aliás, foi musicada por Gainsbourg em uma canção dos anos 1960.

Além do talento de compositor, Gainsbourg mostra toda a sua verve como letrista, com letras altamente complexas, cheias de trocadilhos, duplos sentidos e certa ironia, herdada do escritor Boris Vian, que o influenciou muito. A temática erótica está frequentemente presente nas composições desde os anos 1960 até as últimas obras, como, por exemplo, em “Lemon incest”, que compôs para sua filha Charlotte Gainsbourg em 1985. Gainsbourg compôs também inúmeras trilhas de filmes e foi diretor de quatro longas-metragens e vários clipes. Até o fim da carreira, continuou compondo para outros artistas, como Vanessa Paradis (mulher de Johnny Depp), Alain Chamfort, Alain Bashung, mas também atrizes como Catherine Deneuve e Isabelle Adjani.

Para quem quiser mais informações, existem vários sites sobre o artista, entre os quais recomendo http://gainsbarre.typepad.com/. Alguns discos (importados) podem ser encontrados no Brasil, em lojas como a Fnac, Saraiva ou Livraria Cultura, assim como o CD Monsieur Gainsbourg (em edição nacional), com releituras de canções do artista por Franz Ferdinand, Feist, Kid Loco, Portishead, entre outros. Finalmente, recomendo a leitura do livro Um punhado de gitanes de Sylvie Simmons, publicado em português pela editora Barracuda.

As informações relativas à programação do Ano da França no Brasil estão disponíveis no site do Ministério da Cultura: http://anodafrancanobrasil.cultura.gov.br/