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domingo, 5 de julho de 2009

Daniel ou Natanael?

(Van Gogh, Natureza-morta com frutas - 1887)

Dois textos publicados durante esta semana na Folha de SP chamaram minha atenção por serem convergentes, embora a priori tratassem de temas diferentes.

No dia 29 de junho, Álvaro Pereira Júnior dedicou sua coluna Escuta Aqui a Michael Jackson, destacando que com a morte do artista acaba uma época que não tem volta. “Foi o cara que vendeu dezenas de milhões de discos, que vivia como marajá, pendurado na gravadora, que gastava zilhões para fazer videoclipes.” E cita a matéria publicada por Jon Pareles no New York Times, em que o crítico analisou que Jackson era um paradoxo, considerado prodígio enquanto criança, e infantilizado uma vez adulto.

Por sua vez, João Pereira Coutinho publicou no dia 30 de junho uma crônica muito bem-humorada, intitulada Os normalopatas, em que declara que, ao ler o relato da última reunião da American Psychiatric Association sobre as alterações que devem ser feitas no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder, percebeu que sofre de boa parte das novas doenças mentais que os cientistas querem acrescentar à lista já existente. Assim, entre compulsão por comida, vício em internet ou e-mail, compulsão por compras, preconceitos e fúrias incontroladas, o colunista assustou-se ao perceber que poderia se encaixar no perfil do perfeito demente.

Ao criar um paralelo, talvez audacioso, entre os dois jornalistas, vejo que, de fato, ambos mostram que saímos definitivamente de uma época para entrar em outra. Não há dúvida que Jackson, assim como muitos outros artistas, simbolizou uma época em que criatividade rimava com audácia. Havia algo saudável em reconhecer a impertinência artística e comportamental, e o dinheiro era um combustível necessário à manifestação dessa ousadia.

Os tempos agora são outros, e os artistas mais conceituados ou se tornam verdadeiros pastores pregando a Palavra divina da boa consciência universal, como Bono ou Sting, ou marionetes sem alma oriundas de vagos “Clubes do Mickey”. Aliás, Britney Spears, por sua repentina e surpreendente "volta à normalidade”, não mereceria ser nomeada “mulher de honra de Stepford”?

Assim, percebemos que, aos poucos, entramos na inquietante época da “normalidade obrigatória” em que (politicamente) correto, saúde, equilíbrio, preservação são palavras de ordem. Superamos Orwell ao nos tornarmos nossos próprios big brothers, em um processo insinuante e assustador de autocontrole, muitas vezes inconsciente, em que assimilamos regras de boa conduta em doses homeopáticas que, porém, podem ser fatais.

Se nosso comportamento, nosso apego, nossa afetividade, por mais banalmente humanos que sejam, correm o risco de ser vistos como desvios, se a ousadia ou a rebeldia artística é percebida como ato de insanidade, podemos perder os sentidos essenciais do gosto e do olfato, para mergulhar na insipidez.

E em vez de conceber a possibilidade de uma ilha como Houellebecq, não seria melhor provarmos os frutos da terra como Gide? Antes sermos o discípulo Natanael do que o clone Daniel!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Era uma vez a revolução


(A demolição da Bastilha - estampa do século 18 - Museu Carnavalet - Paris)

Épocas de crise econômica, com seu rastro de consequências nefastas, entre as quais o desemprego, a redução do poder aquisitivo, a pobreza e inúmeras falências de empresas e bancos, sempre levam ao questionamento dos sistemas econômicos, políticos e sociais existentes e consequentemente ao ressurgimento de reflexões sobre o fundamento e a finalidade das revoluções.
Dessa forma, e mesmo que sem nexo direto entre si, não é de surpreender que dois textos tenham sido publicados a poucos dias de intervalo sobre o tema da revolução, ambos muito interessantes.

O psicanalista Contardo Calligaris acaba de publicar na Folha de SP de 7 de maio o ensaio Ahmadinejad e Foucault, em que, ao analisar a decisão de cancelamento da visita do presidente do Irã ao Brasil, questiona a análise positiva que Foucault fez da revolução iraniana e, intrinsecamente, nosso almejo, mesmo que inconsciente, de uma esperança coletiva vinculada a movimentos revolucionários [
http://contardocalligaris.blogspot.com/2009/05/ahmadinejad-e-foucault.html ].
Por sua vez, Serge Halimi, escritor e jornalista, ao constatar que “a crise do capitalismo enfraquece as oligarquias que estão no poder”, publicou no Monde Diplomatique de maio um artigo bem documentado e intitulado Éloge des révolutions, em que faz um apanhado das revoluções consideradas historicamente importantes ao analisar nossa atualidade e nossa apatia diante de fatos que poderiam levar a desejos revolucionários que mudassem as sociedades [
http://www.monde-diplomatique.fr/2009/05/HALIMI/17050 ].
Apesar de as análises serem bastante diferentes, há certamente um paralelo a fazer entre o ponto de vista do psicanalista e o do escritor.

Em primeiro lugar, Calligaris declara que não consegue “ponderar os problemas do mundo sem pensar no individual”, enquanto Halimi logo analisa a evolução histórica do pensamento revolucionário em que, após o apogeu dos Estados totalitários (União Soviética e China), as democracias, principalmente nos modelos anglo-saxões, recuperaram a idéia de mudança de sociedade para construir um modelo revolucionário mais político do que social, baseado na lei do mercado.

Apesar de terem focos diferentes, os dois autores referem-se ao Contrato social de Rousseau ao reconhecer que há inevitavelmente no ser humano um desejo de coletividade. “Algo [...] que nos permita renunciar por um tempo a nossas responsabilidades singulares”, segundo Calligaris, enquanto para Halimi os movimentos sociais são antes de tudo defensivos porque “pretendem restabelecer um contrato social que julgam desrespeitado pelos patrões, os latifundiários, os banqueiros, os políticos”.

O que diferencia Calligaris de Halimi, e justamente por causa disso os torna tão essencialmente ligados e interessantes no antagonismo, é a análise da violência que toma conta dos movimentos revolucionários e que leva à eterna pergunta de saber se os meios justificam o fim.

Calligaris, ao citar a Revolução Iraniana, constata que “a ‘vontade geral’ se constrói sempre sobre os cadáveres dos que não concordam”. Refere-se mais explicitamente à opressão em sociedades como, por exemplo, a dos talibãs no Afeganistão, em que há uma mulher que “no porão, ainda está esperando para saber a que horas será apedrejada”.

Halimi, ao reconhecer a violência dos movimentos revolucionários, replica – a quem se escandaliza com os massacres da Revolução Francesa ou Russa, ou dos oficiais do exército de Chang Kai-chek na Revolução Chinesa – que também não se pode ocultar a fome sofrida pelo povo francês durante o Antigo Regime enquanto havia bailes na corte, em Versalhes; o massacre de manifestantes pacifistas em São Petersburgo em janeiro de 1905 pelos soldados de Nicolau II; e os revolucionários chineses queimados vivos nas caldeiras de locomotivas em 1927.

Entretanto, não se trata de um impasse, porque esse antagonismo vem essencialmente de diferenças prismáticas, naturalmente decorrentes do ponto de visto de cada autor.

Calligaris, com o olhar de psicanalista, declara que “o legado irrenunciável da psicanálise é sobretudo a necessidade de pensar nas pessoas uma por uma, sem ilusões e entusiasmos coletivos”. Halimi considera que “para quem a despreza, o erro principal da revolução não é a violência, fenômeno tristemente banal na história, mas, algo que acontece muito raramente, a mudança radical da ordem preestabelecida que acontece por meio de uma guerra entre possuidores e proletários”.

Entretanto, não vejo na reflexão de Calligaris uma negação da necessidade do coletivo, da mesma forma que não há nos comentários de Halimi nenhum rastro de sublimação de massacres politicamente justificáveis. Ambos defendem pontos de vista válidos.

Sinto nesses textos a necessidade de resgatar algo profundo do ser que não se encontra em nenhum modelo de sociedade atual e cuja falta se faz ainda mais crítica diante da crise que está abalando as principais economias mundiais. Trata-se de uma identidade do ser que está cada vez mais apagada e que precisa brilhar de novo no modo individual como no coletivo. Daí a necessidade de repensar a sociedade com ela existe hoje.

Tempos de crise mundial são igualmente tempos de crise pessoal. Tomara que desses milhares de crises individuais nasça alguma mudança coletiva, uma revolução que resgate também o valor do indivíduo dentro da coletividade. E de preferência, sem violência...

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A divina comédia - Da efemeridade dos fatos

Ao entrevistar Caetano Veloso no último dia 15, para o lançamento de seu novo CD, Zii e Zie, Luiz Fernando Vianna, da Folha de S.Paulo, perguntou se a música “A base de Guantánamo”, incluída nesse disco, não arriscava à caduquice diante da decisão de Obama de desmontar a base e reduzir as restrições políticas e econômicas em relação a Cuba: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u550845.shtml.

O cantor respondeu esclarecidamente: “A minha indignação não envelheceu, não pode nunca envelhecer. A canção não é uma noticia de jornal”...

A questão do obsoletismo da temática abordada por Veloso nessa canção e a resposta por ele dada à pergunta do jornalista levantam uma série de reflexões que, de certa forma, são intrinsecamente ligadas: 1) a natureza efêmera dos fatos do ponto de vista jornalístico e a consequente relativização de seu impacto a longo prazo; e 2) o esquecimento desses fatos e a negação de seu papel histórico e social como resultado dessa relativização.


É inegável que a proposta de Caetano Veloso vai além de uma simples denúncia do sistema carcerário de Guantánamo e das chocantes cenas de tortura e humilhação de prisioneiros políticos amplamente midiatizadas pela imprensa internacional durante o governo Bush. É também incontestável que o cantor não se limita a assinalar o simbolismo da violação dos direitos humanos pelos EUA em território cubano. Trata-se da manifestação do artista diante da contradição política de um sistema democrático que se veste da imagem de respeitoso e ardente defensor de valores vinculados aos direitos humanos, mas que utiliza as formas mais desprezíveis de desrespeito aos mesmos direitos humanos como manifestação de sua hegemonia.

Ora, o cantor não precisou fazer um discurso de sociologia política para expressar sua indignação. Pelo contrário, resumiu magnificamente sua reflexão em uma simples frase: “O fato dos americanos desrespeitarem os direitos humanos em solo cubano é por demais forte simbolicamente para eu não me abalar”, que ele repete ao longo da música como um leitmotiv. Porém, a relativização da letra de Veloso ao simples nível fatual constitui uma forma redutora de analisar o pensamento do autor.

Ao identificá-la como mera narração de um fato, corre-se o risco de limitar sua importância à sua pertinência jornalística, que, por natureza, é passageira, e implicitamente reduzir seu impacto a esse reduto de pertinência.

Assim, há uma negação implícita de toda dimensão maior (social, política ou simbólica) que a manifestação do artista possa ter, que a despe de seu brilho e de sua profundeza. Torná-la fatual faz com que ela verta também para o eventual, o corriqueiro, o fútil, o esquecível.

E, por extensão, existe o perigo latente de abrir uma brecha para sugerir a possível caduquice de toda obra, que, ao se referir a acontecimentos de determinada época ou situação, limitaria sua pertinência à duração dos eventos narrados. Então, por que não qualificar de caduca a música “Vai passar”, de Chico Buarque, já que decorreram mais de vinte anos desde o movimento “Diretas já” e o fim da ditadura militar? E para que ler o livro Arquipélago Gulag, de Alexandre Soljenítsin, se não existe mais União Soviética nem stalinismo?

Dessa forma, a limitação da compreensão do pensamento ao fatual logo se torna a justificação implícita do esquecimento coletivo que faz com que as novas gerações não saibam medir a importância sociocultural de inúmeros acontecimentos por falta de referencial histórico que lhes fale sobre esses acontecimentos.

O clipe ao vivo da música “A base de Guantánamo” pode ser visto no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=rXJQTGix-gc; Caetano Veloso comenta a música no próprio blog http://www.obraemprogresso.com.br/2008/06/19/caetano-veloso-comenta-a-musica-base-de-guantanamo/

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A divina comédia - A sina do ensino



Foi com muito interesse que li, na Folha de SP de 08 de abril, o artigo de Marcelo Coelho sobre o filme Entre os muros da escola, de Laurent Cantet. http://marcelocoelho.folha.blog.uol.com.br/ Esse filme, que conquistou a Palma de Ouro em Cannes em 2008 e fez muito sucesso na França, seu país de origem, expõe sem nenhum disfarce a conturbada relação entre um professor e seus alunos em uma classe de um colégio público do 20º arrondissement (distrito) de Paris. Os conflitos são ainda mais exacerbados porque a classe é multirracial, composta por alunos de diferentes etnias, culturas e religiões (árabes, africanos, antilhanos, asiáticos, além de europeus).

Entretanto, se o sociólogo e jornalista reconhece que “uma política centrada nas ‘diferenças’, nas ‘identidades’ sem dúvida terminaria fragmentando demais a sociedade”, constata também “uma falta assustadora de flexibilidade e de afeto” que “destrói por dentro aquele sistema educacional organizadíssimo – e cego para as necessidades de cada ser humano, aluno ou professor”.

A meu ver, a análise de Coelho não deixa de ser pertinente, embora não contemple todos os fatos históricos e culturais que levam o sistema educacional francês ao colapso apresentado no filme.

É imprescindível lembrar que o ensino fundamental francês é enraizado nos princípios de um sistema educacional laico elaborado no fim do século 19. De fato, vigora até hoje a idéia segundo a qual a escola deve ser “gratuita, laica e obrigatória”, defendida por Jules Ferry, ministro da Educação e presidente do Conselho da Terceira República da França entre 1879 e 1885. Além disso, a “instrução” (e não a “escolarização”) tornou-se obrigatória. Isto é, independentemente do lugar em que estiverem estudando, todas as crianças deverão obrigatoriamente passar pelo funil de um ensinamento padronizado de normas e matérias que incluem, entre outras, a instrução cívica e moral.


No filme de Cantet, podemos perceber o quanto essas regras de padronização do sistema educacional continuam totalmente aplicadas hoje. Assim, o professor parece incapaz de fugir dos moldes e limites do programa educacional obrigatório definido pelo Ministério da Educação, e tenta “ensinar” a poesia de Rimbaud a alunos que mal conseguem se expressar em um francês básico se este não for temperado por gírias e expressões que servem como parâmetros de identificação tribal (ou seja, de alcance ainda menor do que se fossem expressões étnicas) e são totalmente desprovidas da possibilidade de comunicação e/ou intercâmbio com quem não for membro da tribo.

(elenco do filme Entre os muros da escola)

Por outro lado, e como o destacou judiciosamente Coelho, quando se percebe um começo de comunicação, ou seja, quando “uma pequena luz brilha nos olhos do aluno indolente”, mesmo que hesitante, ela é imediatamente apagada pela retórica intragável do sistema educacional e das ferramentas socioeducativas de que se serve o professor. O despertar do interesse nunca será visto ou reconhecido como o primeiro sopro de criatividade ou o primeiro passo de um crescimento individual, mas deverá imediatamente atender à cobrança comportamental do estudante para se tornar bom aluno, isto é, aquele que absorve as informações recebidas – e nelas se espelha – no intuito de apresentar resultados satisfatórios dentro dos critérios acadêmicos de avaliação de desempenho. Esse conceito é invariavelmente destinado a fracassar.Contudo, há de se perguntar se o fracasso do sistema educacional retratado pelo filme é intrinsecamente vinculado ao meio socioeconômico em que se ministra o ensino, ou se podemos generalizar esse insucesso ao sistema como um todo.

É incontestável que os maiores conflitos registrados no sistema educacional francês acontecem principalmente em instituições de ensino que atendem meios socialmente críticos ou se situam em regiões economicamente desfavorecidas. Outros cineastas antes de Cantet narraram as dificuldades e os conflitos vividos por professores e alunos, como, por exemplo, Bertrand Tavernier em Quando tudo começa (1999). Por sua vez, o filme de Cantet mostra de forma clara que a impossibilidade de comunicação que existe entre professor e alunos também é flagrante entre os próprios alunos, e atinge o núcleo familiar desses jovens. Aí a incomunicabilidade se torna um fator agravante porque generalizado, que transborda os muros da escola para atingir a sociedade como um todo. Percebemos muito bem esse problema na cena em que a mãe de um aluno, africana, convocada a comparecer perante o conselho de disciplina da escola que vai decidir sobre a possível expulsão de seu filho, precisa do auxilio desse mesmo filho (ou seja, do acusado) para entender o que lhe está sendo dito e perguntado, pelo simples motivo de que ela não fala uma só palavra de francês (e, por extensão, não entende o que está fazendo nessa reunião, nem a importância sociossimbólica desse conselho dentro da estrutura educacional francesa).


Agora, ao assistirmos ao filme A bela Junie (2008) de Christophe Honoré, não percebemos os mesmos conflitos. Não somente porque o roteiro não trata desse assunto, mas porque a história se passa em um colégio de um dos arrondissements mais ricos da Paris, cujos alunos pertencem todos a famílias de classe A ou B e não parecem ter problema de identificação com os programas de ensino dessa escola, em que são até ministradas aulas de italiano e organizadas viagens culturais internacionais. Dessa forma, mesmo que o filme retrate crises pessoais e existenciais, de modo algum se percebe, entre alunos e professores, qualquer zona de conflito que se fundamente em uma incompreensão das matérias ensinadas ou que seja resultado da impossibilidade de comunicação entre os vários grupos distintos e constitutivos do núcleo escolar em que se desenrola a trama.


Percebemos assim, em outras palavras, que a adequação do sistema educacional às aspirações e metas de determinados grupos socioeconômicos (e, consequentemente, culturais) depende da identificação desses grupos com o formato e o conteúdo do ensino.

Então, a escola que não for dinâmica, flexível e progressista corre o risco de não ser a matriz que servirá para moldar as futuras gerações às necessidades evolutivas da sociedade. Pois a França, por ter-se transformado em uma sociedade multirracial (com a migração em massa de diferentes etnias devido ao fim do colonialismo nos países da África e também em razão dos fatores socioeconômicos da Europa oriental e mais recentemente da Ásia), deve continuar a adequar progressivamente seu sistema educacional para responder às mudanças geradas por essa evolução.

De outro modo, a escola que se tornar uma simples incubadora, cuja função for meramente assegurar a transmissão inabalável, controlada e predeterminada de estigmas socioculturais de identificação de determinado grupo como se fosse uma preciosa herança, acabará por fracassar quando se deparar com algo (ou alguém) fora dos padrões. Consequentemente, quem não pertencer a esse grupo deverá adaptar-se, a todo custo, ou será descartado, porque o maquinário atende padrões determinados pelo grupo dominante.

Dessa maneira, entendemos melhor a origem dos conflitos retratados pelo filme de Cantet, principalmente no que diz respeito à impossibilidade de o professor (e de todo o sistema escolar, nele representado) se comunicar com alunos que são nada menos que os componentes da futura sociedade francesa.

Por outro lado, percebemos no filme o quanto esses componentes da futura sociedade também são contraditórios, fragmentados e geradores de conflitos. E podemos vislumbrar objetivamente os motivos que levam o sistema educacional a não ser tão flexível e evolutivo, como se, pela rigidez que demonstra, fosse o guardião simbólico da coesão nacional.

Portanto, diante da dificuldade de reversão desse quadro ou de soluções que emanem do sistema educacional em si, outras saídas tem sido tentadas. Como acontece de forma cada vez mais corrente não somente na França mas no nível mundial, soluções diferenciadas de educação têm sido encontradas em estruturas nem estatais nem acadêmicas (como associações, ONGs, etc.) que oferecem formas alternativas, flexíveis e poligonais de ensino, mais adequadas às demandas da sociedade plural.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Esse tal de rock’n’roll


Ao folhear a revista Monet de abril na esperança de encontrar alguma novidade ou curiosidade que não fosse o anúncio da milésima reprise de histórias de bruxinhos ingleses ou heróis americanos aracnoides, deparei-me com a entrevista do veterano roqueiro Gene Simmons, da não menos veterana banda Kiss.

Surpreendi-me ao ler com certo interesse esse rápido bate-papo, não que eu seja, nem de longe, aficionado desse grupo, cujas músicas com cadência de square dance, guitarras estridentes e letras primárias, tocadas em ambiente de Circo Máximo, com direito à pirotecnia e cuspes de sangue, nunca me empolgaram. Pois bem. No fim da entrevista, Gene Simmons declara que o rock morreu no sentido de que bandas como Nirvana ou Soundgarden, que lideraram o movimento Grunge, apesar de incontestável qualidade musical, teriam afugentado a molecada desse gênero musical ao se apresentarem no palco feito mendigos. Simmons considera que a juventude, na busca de novos heróis, teria migrado para o rap, cujos ídolos seriam, de certa forma, os últimos representantes do imaginário rock feito (nas palavras dele) de “carrões, garotas peitudas a tiracolo e cordões de ouro no pescoço”.


Embora redutora, há de se reconhecer certo valor na análise de Simmons. Não no que diz respeito ao fim do rock em si, mas à sua inevitável evolução e, consequentemente, às mudanças relativas a seus valores, seu imaginário e seu público.


É incontestável que os clipes de rap ou hip-hop apresentados por canais musicais como MTV utilizam, de forma quase sistemática, elementos como carros esportivos ou limusines, garotas com formas mais do que vantajosas, mansões, joias, festas, bebidas, drogas em uma duvidosa luxúria. Cantores de rap e hip-hop gostam de exibir músculos, relógios, dinheiro ou qualquer outro artefato que possa lhes dar certo estatuto social de novos ricos deslumbrados, como no clipe de 50 Cent "Window Shopper http://www.youtube.com/watch?v=74nylouvtYc, por exemplo, inclusive e principalmente se esse estatuto se prevalecer de amizades com a bandidagem (ver nesse sentido o clipe "Go DJ" de Lil Wayne http://www.youtube.com/watch?v=u3dIP1jnu4Q). As cantoras, por sua vez, são provocantes e oferecidas, para não dizer devassas, e ostentam igualmente joias, roupas de grife e carros esportivos.

O rock, por outro lado, tende a mostrar uma face mais respeitável e comportada, e não é de surpreender que as bandas mais conceituadas de hoje, tanto pelo público quanto pela crítica especializada, como Radiohead ou TV On The Radio, estejam mais preocupadas com temáticas vinculadas aos direitos humanos ou ao aquecimento global do que com o esbanjamento de riquezas e atributos.

Ora, se voltarmos à essência do imaginário que o rock representou durante várias décadas, desde os requebros eróticos de Elvis até a trajetória trágica de Kurt Cobain, passando pelas viagens “iniciatórias” dos Beach Boys ou dos Beatles, devemos reconhecer que essa vertente da música se espelhou em revoluções sociais, sexo, drogas, bebidas e muito dinheiro.


Mas parece que estou falando de outros tempos, narrando fatos históricos que não condizem mais com nossa realidade. Será isso mesmo? O rock e seu imaginário são fatos históricos a serem compilados em enciclopédias e visitados em museus ou apenas houve um deslocamento de valores e comportamentos de uma corrente musical para a outra?

A meu ver, houve uma recuperação, pela turma do rap e hip-hop, de um folclore que não pertence obrigatoriamente ao rock ou a qualquer outra corrente musical, mas que diz respeito à idade dessas correntes. Ou seja, o imaginário vinculado à aquisição inebriante de certo poder representado por bens materiais, sexo, drogas ou qualquer comportamento que seja a manifestação simbólica e provocadora de insubordinação em relação a normas preestabelecidas e por essência restritivas é apenas uma fase evolutiva da manifestação artística.

Afinal, podemos ver semelhanças muito claras de comportamentos entre a representação do imaginário rock e o do rap.

Por exemplo, como podemos julgar com desdém a representação das mulheres nos clipes de rap atuais e não lembrar que há quase 30 anos os Rolling Stones ilustravam a música “She was hot” http://www.youtube.com/watch?v=GwRLy_nD7mg com uma garota que cuspia fogo pelo traseiro? Nada mais machista! Ademais, esse clipe é em si uma síntese de todos os elementos simbólicos dos clipes de rap atuais, como mansão com decoração cafona, bebidas, fumo e sexo. Aliás, na mesma época, garotas peitudas e pouco vestidas rebolavam à vontade nos clipes de bandas de rock como Van Halen. No encarte do disco Jazz, o Queen fez a apologia de garotas de bumbuns grandes andando nuas de bicicleta (que bom gosto!), enquanto Elton John ostentava sem nenhum pudor propriedades, roupas e joias, como no clipe da música "I Still Standing" http://www.youtube.com/watch?v=EpSwO0aJKHA.

Da mesma forma, como podemos julgar negativamente a perdição de uma Amy ou Britney e não lembrar as loucuras de um Keith Moon, as bizarrices de um Syd Barrett, as provocações de um David Bowie ou de um Johnny Rotten? E como criticar a juventude que se identifica com Tupac Shakur, símbolo e mártir do gangsta rap, se, em outros tempos, sentimos também alguma identificação com Syd Vicious, símbolo e, de certa forma, mártir do movimento Punk?

E não há como limitar essa análise ao rock e o rap, já que, como eu disse antes, trata-se de manifestações comportamentais que dependem da idade da própria corrente musical, dos seus representantes e do seu público. Assim, vale a pena lembrar, por exemplo, que em outubro de 1955 o público do Olympia, em Paris, quebrou as poltronas ao enlouquecer com o suingue do saxofonista americano Sidney Bechet. Que Billie Holiday se entregou fatalmente às drogas bem antes de Hendrix saber tocar os primeiros acordes de guitarra. Já em 1877, a ópera Sansão e Dalila, de Saint-Saens, por ser considerada provocadora (e, portanto, ofensiva), foi vaiada pelo público, assim como o foi Villa-Lobos na Semana de Arte Moderna de 1922, no Municipal de São Paulo. E quem não se lembra da rebeldia protopunk de Mozart, admiravelmente retratada por Milos Forman em Amadeus?

Sendo assim, não há porque declarar que o rock morreu. Ele apenas se tornou coisa de gente grande, ou seja, ele atingiu outro patamar dentro da história da música, veste-se agora de outros valores e manifesta novos comportamentos. Isso se mostra claramente na escolha unânime do Radiohead como melhor banda de rock atual. Aliás, disserta-se muito sobre a verdadeira natureza da música desse grupo cujas influências musicais são múltiplas e que, por sua vez, influencia também outros artistas, entre os quais músicos de jazz como Brad Mehldau. E ao ver o público do show do Radiohead, percebemos verdadeiro êxtase, quase místico ou religioso, mas também uma grande atenção, quase reverencial, que faz com que essa audiência se aproxime mais do que poderíamos esperar de um público de jazz ou de música clássica.


E enquanto eu estava elaborando a presente matéria, li com muito interesse a crônica de Álvaro Pereira Júnior no caderno Folhateen da Folha de SP de 30 de março, em que ele fala de duas revistas dedicadas à música, a americana Blender, que está morrendo, e a inglesa Word, que vê seu público crescer significativamente. O mais interessante é que a revista Word é destinada a um público acima de 35 anos de idade, enquanto a outra é mais dirigida ao público da faixa de 18 a 34 anos. Além da conclusão mordaz sobre “revistas de moleques e de tiozinhos”, o que me chamou a atenção nesse artigo é o comentário do jornalista sobre os motivos que o levam a gostar muito da revista Word: “São caras mais velhos que acompanham bem de perto tudo o que acontece, sem embarcar cegamente no último hype. Atualizados e adultos ao mesmo tempo. Minha praia”.

Esse comentário, além de ir ao encontro do artigo que escrevi sobre ser ou não ser antenado e a necessidade compulsiva de armazenar informação, http://metreno.blogspot.com/2009/03/divina-comedia-ignorantus-ignoranta.html confirma plenamente o que acabei de desenvolver, ou seja, que o rock está seguindo naturalmente um processo de amadurecimento no qual redefine valores e comportamentos que vão ao encontro da evolução igualmente natural de seu público.