Ao criar um paralelo, talvez audacioso, entre os dois jornalistas, vejo que, de fato, ambos mostram que saímos definitivamente de uma época para entrar em outra. Não há dúvida que Jackson, assim como muitos outros artistas, simbolizou uma época em que criatividade rimava com audácia. Havia algo saudável em reconhecer a impertinência artística e comportamental, e o dinheiro era um combustível necessário à manifestação dessa ousadia.
Os tempos agora são outros, e os artistas mais conceituados ou se tornam verdadeiros pastores pregando a Palavra divina da boa consciência universal, como Bono ou Sting, ou marionetes sem alma oriundas de vagos “Clubes do Mickey”. Aliás, Britney Spears, por sua repentina e surpreendente "volta à normalidade”, não mereceria ser nomeada “mulher de honra de Stepford”?
Assim, percebemos que, aos poucos, entramos na inquietante época da “normalidade obrigatória” em que (politicamente) correto, saúde, equilíbrio, preservação são palavras de ordem. Superamos Orwell ao nos tornarmos nossos próprios big brothers, em um processo insinuante e assustador de autocontrole, muitas vezes inconsciente, em que assimilamos regras de boa conduta em doses homeopáticas que, porém, podem ser fatais.
Se nosso comportamento, nosso apego, nossa afetividade, por mais banalmente humanos que sejam, correm o risco de ser vistos como desvios, se a ousadia ou a rebeldia artística é percebida como ato de insanidade, podemos perder os sentidos essenciais do gosto e do olfato, para mergulhar na insipidez.
E em vez de conceber a possibilidade de uma ilha como Houellebecq, não seria melhor provarmos os frutos da terra como Gide? Antes sermos o discípulo Natanael do que o clone Daniel!
















